Artigos para Autorreciclagem

Conte seu Problema - Crianças que se comportam como gente Grande, Serão Precoces?

O progresso consciencial humano parece limitar-se a capacidade de organizar seus problemas de modo a nunca perdê-los de vista...
"O estado de Atenção, quando se faz presente, faculta ao indivíduo perceber o tamanho da sua desatenção..."
Conte seu Problema - Crianças que se comportam como gente Grande, Serão Precoces?
A Superproteção é um dos piores e mais destrutivos elementos de deformação psicológica já criados pelo homem...

Examinando a Questão...

O cuidado exagerado com os filhos pode ter efeitos colaterais graves...

"...Minha filha é muito precoce: Compreende tudo e dá cada palpite... Parece até gente grande..."

Não, não lhe posso dar parabéns por uma situação que creio ser até grave. Uma menina de cinco anos que fala como gente grande – em tom de gente grande, que faz comentários sobre escândalos sociais, que dá palpites sobre a vida alheia – acompanhado dos respectivos muxoxos... "Hum, sei não..."; sofisticada, preciosa e distante, é mesmo um caso digno de lástima.

Onde estão suas bonecas? As suas panelinhas de plástico e o seu fogãozinho de brinquedo? Diz a senhora que ela prefere o vidrinho de esmalte e que já sabe cobrir de vermelho as pequeninas unhas – lamentável. Que ao invés de revistas infantis prefere as femininas adultas e que suspira virando os olhos ao ouvir os discos dos cantores românticos da moda.

É possível que a senhora não sinta a monstruosidade do que está permitindo, e não só permitindo, mas até estimulando? Então não lhe se apercebe a senhora que a pobre criança está sendo completamente estragada pelo seu egoísmo, pela sua companhia e mau exemplo? Privando-a de ter amizades com outras crianças da sua idade, mantém a senhora a sua filhinha trancada no seu lindíssimo apartamento. A senhora é a sua companheira – uma "criança" demasiado crescida e igualmente mal educada – mas ao invés de descer até a menina, o que faz a senhora?

"Oh filhinha sente-se aí no divã, mas com elegância... – parece mesmo que vejo a cena – vou lhe contar o que foi a festa de ontem..." E patati-patatá, lá vai a senhora falando à menina como se o estivesse fazendo com uma pessoa da sua idade.

Quando as suas amigas visitam-na sua filha escuta "edificantes" conversas. A princípio, de olhos esbugalhados e tìmidamente receptiva. Agora, entretanto, as experiências de tanto repetidas já a fazem sentir-se como alguém da mesma roda e, foi não foi, lá sai uma das suas... A senhora, claro, orgulhosa com o aparte, ainda realça o feito e as suas amigas, em coro, acham que a garotinha "é formidável", que "promete", e assim por diante.

Tudo é profundamente triste; sinto muito. Se os pais fossem educados, gerariam filhos educados... Esta é uma sentença dum moralista. É um verso de Goethe.

A senhora não gosta de crianças barulhentas, "infantis." Adora o ar de madureza que sua garotinha ostenta; o seu jeitinho de manter a cabeça erguida e ligeiramente inclinada para a esquerda, o seu preciosismo, sei lá o que mais, e veste-a com miniaturas dos seus próprios vestidos, com cópias dos seus pijamas, da sua camisola, do seu "tailleur."

Mas o que na realidade acontece é que a senhora adora a si própria, e o seu narcisismo é tamanho que lhe impõe "ver-se na sua própria filha." A senhora se enternece como se estivesse vendo a si mesma: daí ter transformado a sua menina numa cópia viva da sua própria pessoa, incutindo-lhe todos os seus defeitos, caprichos, o seu dengo, o seu ar de gata de alta linhagem que não dá muita "bola" a quem quer que seja. E cortando da vida de sua filha todas as expansões próprias à sua fase infantil, lhe está a senhora impondo uma falsa maturidade, violentando a natureza e tentando artificialmente suprir aquilo que só o tempo é capaz de fazer.

As consequências dessa sua errada atitude não tardarão a aparecer. Então dirá a senhora que sua filhinha "também" sofre dos nervos, assim como a senhora já é “atacada” – na verdade uma pilha – e, como a senhora, ela terá então o "seu médico," e tudo caminhará na forma da rotina.

Escute aqui: reeducá-la aos 35 anos vai ser muito difícil, e muito mais ainda porque a senhora não tem a menor intenção de assim proceder. Não, isto não é uma "Manie de Perfection" – não é de todo mau o seu francês... – o que, como extremo oposto, seria igualmente condenável. Mas com a senhora tudo tem que ser 8 ou 80? Não existe uma maneira de afastá-la do exagero que cerca sempre todas as suas decisões? Sugiro que pare com a deformação que vem impondo à sua filha. Não que as coisas se modifiquem, logo em seguida. Acredito mesmo que a senhora estragou definitivamente a criança.

Pode-se, entretanto, tentar atenuar o mal que já foi feito. Leve-a um Jardim da Infância, promova a aproximação com outras meninas, dê-lhe brinquedos próprios à sua idade e, pouco a pouco, quem sabe, pode ser que a situação se corrija. Se não pode passar sem as suas reuniões costumeiras, onde a vida alheia e as torradas com chá tem largo consumo, continue a promovê-las.

Evite, no entanto, que a sua filha assista o massacre das reputações, os comentários maliciosos, e não pronuncie, na sua presença, as suas costumeiras frases dúbias ou a última criação da gíria carioca. Considere que seu dever é educar sua filha. E isto que vem fazendo, definitivamente, não é educar.

Não, a senhora não foi também educada, e tudo é tão artificial na sua própria personalidade que lhe parece absurdo ser natural, simples e espontânea. Mas se o amor de mãe ainda existe em seu coração, então reflita que deve colocar o destino da sua filha acima do seu e fazer por ela o que seus pais, infelizmente, nunca fizeram por você.

Fonte: Dr. Gonçalves Fernandes, Chefe da Seção da Ortofrenia e Higiene Mental do Depto. de Saúde Pública, da Faculdade de Ciências Médicas, de Pernambuco.

Revista do Ensino - Porto Alegre - Brasil

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