Dicas para Autorreciclagem

As Formas Primárias dos Nossos Medos

Finalmente, eis um estudo objetivo que examina as causas primárias dos nossos medos...
"As mudanças não ocorrem com o tempo, mas apenas quando o tempo é eliminado..."
As Formas Primárias dos Nossos Medos

O medo psicológico é sempre acumulativo, uma vez que trata-se de um ensinamento ou instrução; um processo cognitivo construído ao longo do tempo, como outro qualquer...

Examinando as raízes primárias da Questão...

Nosso cérebro foi programado pela natureza para aprender qualquer coisa. E mesmo o ato de permanecer indiferente ou ignorar uma orientação pode ser considerado uma forma de aprendizado. Assim, aprender é simples e fácil. Já o fato de descartar um conhecimento inútil, a exemplo dos vícios patológicos, processos de autovitimização, manias e paranóias, pode não ser tão simples.

Uma criança não nasce com medo, especialmente sob a jurisdição das causas, do combustível que suscita, provoca ou evoca a manifestação desse medo.

Uma forma de indução ao medo, como, por exemplo, o medo do escuro, tem como origem vários mitos criados e reciclados pelos adultos, onde situações tiradas de suas crenças pessoais ou religiosas conceituaram a escuridão como um atributo de coisa ruim.

É como no exemplo da mãe cuja intenção é domesticar o filho desobediente à força. Assim, usando como ilustração a falta de visibilidade que existe na escuridão, o induz a crer que a qualquer momento, de dentro das trevas, surgirá um Bicho Papão para pegá-lo, caso insista em desobedecer. A partir desse ponto, a simples menção do escuro já condiciona aquela criança a ter medo, não do escuro, mas das coisas que poderão surgir do seu interior com o firme e exclusivo propósito de fazer-lhe mal.

Podemos imaginar a mente de uma criança como uma folha de papel em branco, onde podemos escrever qualquer coisa. Quando analisamos os traços já fixados do seu comportamento, muitas vezes contrários ao seu temperamento inato, podemos constatar a forte influência das tradições e cultura da mesologia, e como tudo isso interfere de forma dramática em sua conduta.

Cada mesologia construída pelo homem já contêm o acervo de estados emocionais e anímicos que dão forma ao mundo psicológico de todos seus inquilinos. E são exatamente esses traços e caracteres que a criança irá assimilar para compor sua personalidade.

Comportamentos, manias, vícios e outros aspectos, já foram incorporados ao cotidiano dos adultos e aperfeiçoados ao longo de incontáveis gerações. E tudo que resta agora à criança é absorver todo esse acervo, sem direito algum à escolha. Podemos escolher por onde caminhar depois de crescidos, mas, ainda não somos capazes de anular voluntariamente nosso dom natural de ouvir, enxergar, sentir cheiro ou paladar.

Aprendendo a enxergar a coisa com olhar imparcial...

Um dos maiores equívocos dos adultos é julgar a criança a partir de si mesmo. Ele não é capaz de compreender que o estado emocional de uma criança ainda está em fase de desenvolvimento, carece de experiências e memórias para amadurecer. No entanto, a criança já sabe imitar, e isso ela não aprende com ninguém. Trata-se de um atributo ingênito, que faz parte do seu instinto primário. Por isso mesmo poderá tornar-se uma mestra imitadora, e será capaz de copiar dos adultos a maioria das suas manias, sejam elas inúteis ou úteis.

Todo nosso acervo de medos é parte integrante e inseparável desse pacote. O medo é um estado emocional totalmente dependente de alguma causa conhecida para se manifestar. Por isso não existe medo sem motivo.

E até mesmo o chamado medo do desconhecido, para nós, tem uma forma. Ele evoca a solidão absoluta, a falta de rumo e de perspectiva; um evento sem referências em nosso banco de memórias. Um medo puramente psicológico, produto de nossa imaginação.

Mas devemos separar o medo psicológico da prudência. Na prudência o indivíduo evita um perigo conhecido, embora emocionalmente não sinta medo por isso. Já o medo psicológico, este não tem uma causa definida, nem se apresenta como uma ameaça concreta de perigo iminente, uma situação capaz de por em risco nossa integridade física.

Sem um grande Esforço de Nossa parte não há solução viável à Vista...

Uma criança aprende a ter medo do medo. Evitar algo que sabidamente seja capaz de nos causar danos físicos é prudência, uma estratégia de sobrevivência. É o medo natural, saudável, o único que cuja existência é justificável. Usar a imaginação para criar situações que não representam ameaças concretas diante de nós, isso é o medo psicológico. Trata-se de uma deformação na lógica do pensamento. É o medo virtual, patológico, aquele inexistente. E como as prováveis causas do medo representam o próprio medo, logo ela passará a ter medo de confrontar seus medos.

A base desse medo psicológico faz parte do nosso aprendizado informal, e tudo isso é plantado em nosso inconsciente quando nossos pais tentam nos disciplinar à força. É aquela ameaça de punição quando relutamos em dormir cedo, ou a escovar os dentes. O medo se manifesta também quando somos comparados, ou quando simplesmente nos exigem um desempenho acima do nosso potencial.

Dessa base inicial, todas as causas dos nossos medos são catalogadas. E da mesma forma que aprendemos a gostar de ganhar presentes ou elogios, também passamos a temer o oposto dessas coisas. Surgem assim os primeiros indícios de insegurança em nossos atos, e nossa criatividade é substituída pelo desejo de imitar. Imitar, além de mais cômodo, é mais seguro. Basta seguir as ordens, os protocolos e direções já traçadas. Basta que nunca nos desviemos das normas estabelecidas. Assim, a conformação, seja ela má ou boa, torna-se mais importante que a liberdade para criar ou o desejo de se opor.

Talvez seja por isso que o temor às críticas e a constante sensação de que todos os nossos movimentos, e mesmo pensamentos, são observados por um temível censor, tende a nos acompanhar durante o viver. Nasce assim o temor de pensar fora do padrão ou de exercitar a criatividade, uma vez que essas condutas poderão violar a lista de permissões protocoladas por "aqueles" censores que nos espreitam, no aguardo do momento apropriado para nos castigar.

O conflito interior é inevitável. E por toda vida, a presença desse observador implacável que insiste em exigir de nós conformismo, adequação, obediência e perfeição, se tornará uma obsessão. Nesse cenário, onde o ato de repetir as velhas fórmulas e padrões é mais seguro, tornar-se inteligente é impossível.

Por fim, uma criança poderá crescer livre de todos os medos, exceto os saudáveis que já foram citados antes. Os pais poderão cuidar disso, desde que eles próprios sejam capazes de lidar com seus fantasmas pessoais. Quando estamos dispostos a examinar a estrutura do medo, suas causas e motivos pelos quais nos assediam, estamos nos tornando inteligentes. Fugir do medo não é um ato de inteligência.

Assim, explicar desde cedo aos nossos filhos através do esclarecimento, como nós adultos criamos a maioria das causas dos seus medos com a intenção de domesticá-los à força, é de vital importância. Trata-se de um gesto de coragem, honestidade e ética. Afinal de contas, existem muitas outras formas de se disciplinar e colocar ordem na desordem dos nossos filhos, e tudo isso sem a necessidade da prática do psicoterrorismo.


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