Dicas para Autorreciclagem

Em Busca da Perfeição, uma Jornada Utópica

Em busca de um estado de perfeição que desconhece, o homem criou uma ilusória condição de impecabilidade para si mesmo impossível de ser alcançado...
"A Compreensão ocorre quando nos damos conta de que a identificação de uma falha representa o primeiro passo de um acerto que está em andamento..."
Em Busca da Perfeição, uma Jornada Utópica

A maioria dos homens estão convencidos de que a perfeição é um simples produto capaz de ser fabricado a partir de suas habilidades pessoais...

Nossos Critérios de Julgamento podem ser apenas meros esboços que nunca representam a realidade dos fatos...

Aparentemente não podemos evitar, uma vez que se trata de uma reação à primeira vista involuntária, e lá estamos procurando nos outros um modelo de perfeição cuja forma e aparência nem nossa mais criativa imaginação é capaz de conceber.

Não sabemos o que é a perfeição, mas fomos treinados desde o berço para buscá-la em qualquer coisa que esteja ao alcance dos nossos sentidos. Para nós perfeito significa superior, melhor em desempenho, estética e qualidade. Isso quer dizer que, segundo nossos critérios, deverá ser algo nunca sujeito a falhas. É o ideal imaculado ou obra divina, que embora não sejamos capazes de descrever ou detalhar, faz parte de todos os nossos sonhos e fantasias.

Queremos respostas, preferencialmente as prontas. Respostas dúbias não nos interessam, uma vez que suscitam a reflexão, estudo e ponderação, e como pensar de forma calculada e com lucidez dá trabalho, preferimos evitar. Muito menos serão bem vindas aquelas soluções incompletas, opções que exijam de nossa parte algum tipo de esforço complementar. Por isso valorizamos os roteiros ou tutoriais cujo uso já foi socialmente protocolado como gabaritos válidos ou fórmulas com potencial para reformar nossa conduta como num passe de mágica.

Palavras ou atos miraculosos que nos induzam mudanças imediatas e sem esforço, eis o ideal de solução acolhido por nosso imaginário. Tirar conclusões a partir de reflexões profundas ou através de modificações em nossos hábitos, isso não faz parte de nossas deliberações existenciais. Razão pela qual buscamos os conselhos dos especialistas, gurus, sábios, santos, guias ou livros sagrados. Basta que nos digam onde encontrar a coisa pronta e lá estaremos. Eis o principal motivo que fez da arte do copiar e colar nossa mais importante conquista cognitiva.

E parece que todo processo do viver se resume a exaltação dos devaneios cercados de magia que carregamos às costas desde nossa infância, quando idealizávamos nossos projetos a partir de um mundo de fantasia especialmente criado para nos agradar. É o ideal de uma satisfação permanente, quando sequer sabemos o que é uma satisfação não permanente. Buscamos em vida ou após ela, não apenas satisfação, mas uma satisfação plena e eterna.

Uma alegria é sempre um evento de curta duração, portanto, uma alegria imperfeita. Perfeita seria aquela perpétua, ou de acordo com nosso imaginário, um contentamento que gradualmente, com o tempo, se ampliaria até atingir seu ponto máximo. Esse ápice seria a condição perfeita. Difícil, porém, é determinar essa linha de chegada ou qual forma teria esse modelo de perfeição. Por isso aqueles que supostamente já sabem, ou já possuem a resposta pronta, se tornaram símbolos tão importantes para nós.

Em Busca da Perfeição Desconhecida...

De fato, já começamos nossa busca com um repertório considerável de respostas. Em nossas memórias ou banco de lembranças, há sempre uma descrição detalhada de cada um desses itens. E em todos há a promessa de um estado de perfeição exclusivamente destinado aos humanos; um status capaz de ser comprado com algumas penitências, sacrifícios pontuais ou ações meritórias.

Em nossos relacionamentos idealizamos a imagem de uma companhia perfeita, impecável, não mais sujeita a retoques ou ajustes. Seria aquele protótipo único, detentor de todas as qualidades possíveis e impossíveis de ilustrar um homem; uma entidade superior, acima de todos os demais mortais. A mesma regra se aplica às nossas aquisições materiais, ideias ou ideais, padrões étnicos e estéticos, sistemas de crenças, e assim por diante.

Quando buscamos a perfeição, mesmo sem saber do que se trata, também estamos nos colocando no topo da pirâmide do saber. Afinal de contas, agora nos autodelegamos como juízes encarregados de decretar e fixar os critérios e gabaritos capazes de autenticar a coisa perfeita.

Mas o ente humano não é perfeito, está muito longe disso. E embora seja uma extraordinária máquina biológica, ainda apresenta falhas; está sujeito ao desgaste, adoece e morre. Enquanto isso, sua mente se degrada e seus pensamentos são ambíguos; se deformam, adultera, descarta, acrescenta, se confunde pela contradição e tem na imitação irracional seu mais importante modelo cognitivo.

Por isso seus princípios ou critérios de escolhas são duvidosos e parciais. Usa como gabarito para seus juízos opiniões ou verdades abstratas e caóticas, extraídas de uma tradição patológica e dotadas de pouca ou nenhuma lógica. São julgamentos de base conceitual dogmática, ideológica ou religiosa; axiomas bizarros que por uma questão de tabus ou sacralidade nunca poderão ser contestados.

Seria possível a uma máquina defeituosa produzir uma peça perfeita? Se estamos sempre em busca do mais é porque temos de menos. Se ao mais sempre há espaço para acrescentar alguma coisa, isso ocorre simplesmente porque aquilo que julgávamos perfeito ainda está incompleto. A necessidade de corrigir, reparar ou eventualmente acrescentar um algo mais à obra é uma evidência incontestável de sua imperfeição ou incompletude.

Imagine se ao perfeito é possível acrescentar mais alguma coisa. Sendo possível o acréscimo, é porque ainda não está concluído, talvez nunca esteja. Então o que buscamos é um mito, uma fantasia criada por uma mente nosográfica, nada mais que um delírio ilusório; um desígnio típico de um intelecto concebido para enxergar na fantasia um propósito existencial.

A Evidente sigularidade de nossas Limitações e falta de Bom senso...

Mas, aceitar a imperfeição não é uma coisa tão simples para um ego que foi doutrinado desde a infância para exercer um papel de uma entidade superior concebida à imagem e semelhança do próprio criador do Universo. Caso viesse a aceitar sua condição de imperfeito, o homem se tornaria mais tolerante e decerto iria rever todos os seus critérios de julgamento dos outros homens.

Aceitando a imperfeição poderíamos nos tornar capazes de enxergar diante de nós indivíduos semelhantes com uma coisa em comum: a necessidade de reciclagem. Não mais estaríamos em busca de algo que não existe, mas sabedores de que estamos vivendo um momento transitório, onde as mudanças, como se a atestar o evidente status de nossa imperfeição, irão ocorrer com ou sem a nossa concordância.

A maioria dos conflitos humanos está centrada na ideia da impecabilidade absoluta. Conhecedores de nossa imperfeição, cláusula comum a todos, não mais criaríamos falsas expectativas em relação a quem quer que seja; fosse uma autoridade mundana, ou um sábio autoproclamado como guia da humanidade.

O homem santo ou guia espiritual também foram eleitos pelos nossos critérios, juízos equivocados, pensamentos imperfeitos e contraditórios. A verdade que enxergamos nos sábios é apenas um simples reflexo de nossas próprias aspirações; um produto de um pensamento confuso patrocinado por uma tradição pautada na contradição e anterior a nossa própria existência.

As palavras nunca serão as coisas que tentam rotular. A palavra “perfeito” não passa de uma alegoria; uma representação simbólica de um estado transitório de alguma coisa, nada além disso. Perfeito é o fato de que os ciclos regentes de tudo que existe são autônomos, isto é, não foram criados por nós.

E embora existam os ciclos, a verdade é que desconhecemos na íntegra sua origem ou motivos. Mas eles atuam assim mesmo, sem nossa interferência, sem nosso consentimento. Perfeito são os ciclos; imperfeitos todos os objetos sujeitos às leis desses ciclos.

E assim rotulamos o mínimo com a palavra que, segundo nossos juízos, é a mais adequada para representar o máximo. Para nós uma coisa bem feita, apenas reflete que aquilo é capaz de atender às nossas expectativas, anseios, necessidades ou demandas temporárias. Outros usarão medidas diversas para aferir essa mesma coisa, e assim o julgamento não passa de uma condição relativa aos olhos do juiz.

Se a opinião de muitos sobre uma mesma coisa é divergente, a verdade absoluta não está sob jugo de ninguém, nem mesmo daquele que se julga o mais sábio dos homens. Para o mais sábio, há sempre outro que se julga ainda mais, e outro, e assim infinitamente. Logo, perfeita é exatamente a condição de imperfeição, um status que coloca a todos numa mesma condição.

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