Artigos para Autorreciclagem

Ponto de Saturação – O Século do Ego

Há um limite além do qual os fabricantes não mais poderão atrair novos consumidores para seus produtos. O que farão em seguida é um desafio para eles, e certamente, um dramático problema para nós...
Ponto de Saturação – O Século do Ego

"O tamanho da angústia de cada um se mede pela quantidade de desejos não realizados..."

O Princípio da Renovação...

Frase de um estrategista de novos produtos: “Muitos dos supostos melhoramentos em produtos, que na verdade não passam de maquiagens, servem apenas como sugestões ou deixas para os redatores publicitários, quando se reúnem para a elaboração de novas campanhas...”

A ideia do novo pode ser o mais forte argumento por trás do processo de indução ao consumo. Para compreendermos porque isso funciona, primeiro precisamos observar em que se baseia seu modelo de eficiência.

Pouco depois do nascimento, quando informalmente somos instruídos sobre as primeiras noções de mundo, o conceito de que as coisas são temporárias apresenta-se como nosso primeiro problema. E logo o desejo de estabilidade irá se fixar como nossa principal meta existencial.

Trata-se do desejo de perpetuação das coisas que nos agradam. E há uma evidente sensação de conforto e segurança quando pisamos em terreno conhecido. E assim, o princípio da acomodação ou rotina torna-se um dos ativos mais preciosos desse mundo para os indivíduos, e um poderoso propulsor em todas as economias do mundo.

A ideia de que as coisas não são permanentes nos incomoda. Assim, renovamos nossos móveis; nossas roupas; nossas ideias e ideais; a pintura das nossas casas. Isso nos evoca a ilusão de que se as coisas não envelhecem, a mesma coisa acontecerá conosco.

E se a higiene e limpeza desempenham um importante e imprescindível papel quando o assunto é a qualidade de vida, o conceito de limpeza e higienização que a publicidade usa em suas abordagens, tem outro objetivo. Ali, limpeza significa estabilidade; uma negação ao natural estado de degradação e transformação que é o padrão inflexível de todas as coisas existentes dentro do perímetro da natureza. Procure por algo que está imune ao tempo, nunca muda ou se recicla, e decerto não encontrará.

Tudo que é criado obedece a uma lei cíclica e inflexível, onde as coisas envelhecem – já que o tempo cronológico não pode ser contido – e se desgastam. Assim é inevitável que a estética do belo mude de forma; que o limpo, embora permaneça asseado, adquira as marcas de expressão que revelam sua idade.

A ideia do novo tem para nós um significado mais profundo que a simples noção de limpeza ou higiene; vai além do conceito de avanço em qualidade de vida. Ela representa a possibilidade concreta da perpetuação de uma coisa à qual nos apegamos. E manter aquilo sempre renovado induz a ilusão de que é possível a eternização, estabilização, o que consolidaria o conceito da vida eterna.

O Poder da Estética...

A aparência juvenil sempre nos causa boa impressão, enquanto que a velhice nos provoca desânimo. Cultuamos a eterna juventude. Em nossa vida diária, quando algo nos satura ou enfastia há sempre a possibilidade do descarte voluntário; da substituição por algo renovado. Nosso modelo de mundo cultua a troca do velho pelo novo. Não se trata do inservível pelo servível, mas do antiquado pelo recém nascido.

Por isso idolatramos a cosmética sempre jovial das aparências. Mas, para nosso desgosto, vivemos num mundo de coisas velhas, onde nada nunca é verdadeiramente novo. Novidade não é o novo, trata-se simplesmente do velho que ainda desconhecíamos, ou, na maioria das vezes, a mesma condição maquiada.

A estética das coisas sempre renovadas, a todos fascina, uma vez que parece refletir um desejo profundo que existe dentro de cada indivíduo, onde ele poderia se renovar a cada nova estação; de renascer sem deixar marcas após cada desgosto ou desilusão; de se refazer depois de cada erro cometido.

Segundo essa lógica, torna-se fundamental eleger alguém que julgamos qualificado para nos guiar. Por isso a autoridade tornou-se uma figura tão importante em nossas vidas. Afinal de contas, ela é a conhecedora de todos os caminhos, e supostamente é a única matriz capaz de nos conduzir em segurança em direção à estabilidade que tanto buscamos em nossos relacionamentos, sejam com pessoas, objetos, ideias, ideais, crenças, e assim por diante.

Eis a razão do sucesso por trás da ideia de renovação patrocinada pela indústria do consumo; indústria essa que alimentamos com nossos sonhos, dentre eles, o da conquista das coisas impossíveis.

Mas a conquista do impossível não é ideia nossa, trata-se apenas de mais uma estratégia criada para favorecer o consumo. É um conceito fascinante, pois galgar um degrau com esse pedigree nos tornaria psicologicamente e materialmente diferenciados; mais poderosos, apesar de que a mesma mensagem é transmitida e absorvida por todos.

A Absolescência Planejada...

Entretanto, o momento máximo da máquina de vendas ocorre quando foi criado o conceito de saturação. E aquilo que antes poderia significar um formidável desafio para seus vendedores, hoje faz parte de suas estratégias de marketing. E tudo começa quando chega aos ouvidos do consumidor a informação de que os produtos em suas mãos se tornaram obsoletos, ultrapassados. Brilhante e criativo é o propósito por trás dessa peculiar abordagem: o indivíduo que ostenta um produto “obsoleto”, por reflexo, também estará ultrapassado, inferiorizado, desgastado e em ritmo acelerado de deterioração.

É o conceito do status reverso, ou da falta deste. E como a aparência, no consciente de cada indivíduo, ainda é o seu bem mais precioso, a estratégia funciona. A depreciação de uma posse, na mente do consumidor, significa a sumária inferiorização do seu status social ou mesmo da sua própria decadência.

É por isso que em público, para muitos, ainda é evidente o desconforto e constrangimento, quando da inevitável exposição de um bem pessoal de qualidade inferior, ultrapassado, ou comercialmente tornado velho.

Leia Também...